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A minha crítica a Vannevar Bush

Publicado por Julio Anjos em 2007, 14 de Outubro

Acho qué é impossível fazer um curso de ciências da informação sem fazer um resumo crítico a “As we may think” de Vannevar Bush. Finalmente calhou-me a mim.

O problema sobre o qual Vannevar Bush lança uma série de reptos é o da digestibilidade da produção científica, ou seja, a capacidade de os cientistas se manterem a par de tudo o que é produzido por todos os outros cientistas numa determinada área1.

O problema não é novo tendo-se já em 1680 Leibniz debruçado sobre ele, ao reclamar contra “that horrible mass of books that keeps on growing…”, clamando pela elaboração de uma new kind of encyclopedia2 que resumisse os novos livros que todos os anos invadiam (sim já em 1680) as feiras de Leipzig e de Frankfurt.

Vannevar Bush, observando o mesmo problema, 250 anos depois, não só parece desconhecer completamente a solução de Leibniz (“Nucleus Librarius Semestralis”) como as suas evoluções3. Sendo um engenheiro, e portanto um tecnófilo, acha que a solução tem de ser uma máquina.

A solução de trailblazzers, conforme antevista por Vanevar Bush, vai ser razoavelmente concretizada por Eugene Garfield4, ao criar o Science Citation Index, em 1964, onde cada novo paper cientifico é ligado a todos os papers que cita, criando-se assim uma ‘trail‘ de suporte e base científica. (ideia já proposta por Ruth Hutchison Hooker5)

Este sistema veio a influenciar muito mais o processo de produção de literatura científica que o próprio documento de Vannevar Bush. E a influência ainda persiste no mercado de ‘honras’ criado por Garfield, que leva a que todos os cientistas sejam levados/forçados a publicar as suas conclusões6.

Também as bases de dados bibliográficas, que agregam todos os documentos produzidos numa determinada área, por uma série de descritores escolhidos por indexadores e documentalistas concretizam trails entre documentos independentemente da sua sequência no edifício da ciência humana.

Infelizmente, sendo esta uma operação realizada com o máximo de impessoalidade possível, estas trails apenas permitem a descoberta de documentos semelhantes, não de linhas de pensamento que podiam ser cruzadas em benefício da humanidade não permitindo a criação de associação livre7 entre documentos e conceitos, que leve ao progresso científico.

É ao nível de programas de gestão de citações que o utilizador é livre de estabelecer ligações entre documentos e de partilhar as ligações por si estabelecias com outros, em serviços como connotea8 e citeULike9.

Muitos do serviços de bookmarks sociais e folksonomias potenciam relações entre documentos como as antevistas por Vannevar Bush, mas salvo honrosas excepções (PennTags10 por exemplo) acabam sempre por desaguar uma salgalhada sem sentido ou controle.

Estamos a caminho do memex? Da manifestação física idealizada por Bush decerto não. Da mesma maneira que há muito esquecemos as rodas dentadas idealizadas por Otlet. Decerto que se, um dia, alguém fizer algo que agregue as tecnologias e ferramentas anteriormente citadas como CiteULike, connotea, del.icio.us, flickr e YouTube num “registador/documentador” de experiência científica… será um plug-in para FireFox.

Quanto a ter toda a literatura produzida no mundo ao alcance de todo e qualquer memex like device já estivemos mais longe. A questão, como é muito bem colocada por Michael Lesk, não é de digitalização da Opera Omnia da Humanidade, é de copyrigth. Mas o capitalismo documental, ou melhor, o Documento enquanto Kapital11 parece estar de boa saúde. Claro que haveria ainda de considerar a barreira linguística, já que a tradução nunca será automatizável já que parece definitivo que as línguas são uma mundo-visão especifica e indissociável de cada cultura, mas esta problemática acaba superada pela globalização da Língua Inglesa que ultrapassa por completo a Hipótese de Sapir-Whorf12

Conclusão

Ao fim destes anos todos o artigo de Vannevar Bush ao iluminar com o seu imenso prestigio pessoal a problemática da recuperação da informação e tendo-a colocado como um problema a ser resolvido pelo avanço tecnológico, continua a ser reconhecido como seminal para a Ciência da Informação. E no entanto nunca se considerou a possibilidade de denominar esta actividade como Engenharia da Informação, o que prova que a solução não é apenas tecnológica e o progresso científico não é determinístico. Nem Vannevar o pretendia. O seu memex era uma máquina de “esboços”, não um “turco” de fazer ciência… note-se aliás que Taniyama e Shimura se puseram a divagar sobre curvas elípticas e formas modulares, porque as bibliotecas das universidades japoneses ainda não tinham recuperado da destruição da II Grade Guerra.

Addenda

Além dos artigos citados foram lidos alguns outros cujo conteúdo apesar de não citado influenciou a presente resenha:

 As diatribes sobre o teorema de Fermat são baseadas em Singh, Simon. Fermat’s Enigma The Epic Quest to Solve the World’s Greatest Mathematical Problem. New York: Anchor Books, 1998.

1 Pessoalmente a impossibilidade de realizar esta tarefa é a principal responsável pela especialização cada vez mais pormenorizada dos domínios científicos, que se verifica desde muito antes do artigo de Vannevar Bush em análise. Aliás, suspeito que os limites epistemológicos de cada especialidade científica correspondem precisamente à quantidade material científico apreensível por um cientista do ramo.

2 Rayward, W. Boyd. Some schemes for restructuring and mobilising information in documents: a historical perspective.” Information Processing and Management: an International Journal. 30.2 (1994): 163-175. (http://instruct.uwo.ca/mit/345/PDF/Schemes.PDF)

3 Por exemplo: Ruth Hutchison Hooker, “A Study of Scientific Periodicals,” Review of Scientific Instruments 6 (1935): 333-38 apud Rayward, W. Boyd opus cit. (Este estudo encontra-se disponível, ainda que inalcançável em http://dx.doi.org/10.1063/1.1751892)

4 A Influência de “As we may think” sobre Garfield está muito bem documentada em várias entrevistas do último, por exemplo Brynko, Barbara. A Lifetime of Achievement and Still Going Strong.Information Today. 24.1 (2007): 21. 14 October 2007 (http://garfield.library.upenn.edu/papers/infotoday2007.pdf))

5 opus cit

6 Ainda que o mercado de subsídios à investigação coligado com o mercado de citações tenha formado uma dupla difícil de vencer tendo, ainda nos anos 50, o presidente Eisenhower chegado a afirmar que a caça ao subsídio tinha substituído a curiosidade científica.

7 Por associação livre falo daquela que foi por exemplo estabelecida para notar a hipótese de que todas curvas elípticas têm uma forma modular correspondente, conhecida por conjectura de Taniyama-Shimura, cuja prova matemática, muitos anos depois levará Andrew Wiles a provar o Teorema de Fermat

8 http://www.connotea.org/

9 http://www.citeulike.org/

10 http://tags.library.upenn.edu/

11 Ortografia propositadamente germanizada

12 Citada por Lesk.

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